segunda-feira, 11 de março de 2013

Confissão e ressurreição

Texto do Pe. João Batista Libânio SJ.
(Vida Pastoral – abril 2011 - 4810)

Ressurreição e confissão: bela ilação! Ambas falam da vida. A ressurreição encontra em Jesus a sua expressão máxima e anuncia para nós o início da vida além da morte. Ela coroa, em Jesus, vida de entrega de amor a Deus Pai e à humanidade. E espera-nos como coroa da existência entregue ao mesmo Deus no amor. Ressurreição fala então de vida e amor.

Na ressurreição professamos a fé na vida movida pela confiança no amor de Deus

Quando terminamos a quaresma e a dolorosa semana santa na luz da ressurreição, sentimos que a longa caminhada de purificação, de penitência não esbarra no vazio, no desprezo maniqueu do corpo, nos sacrifícios doentios, mas no esplendor da vida. Para o cristão, só tem sentido falar de qualquer renúncia a algum bem terrestre em vista do amor e da vida. Não compartilha de doutrinas estranhas que desconhecem de quem viemos. Fomos criados pela vida e amor infinitos de Deus, fonte última de felicidade e beleza.
O cristão reconhece que no fim de qualquer trajetória de dor ou renúncia, não está o vazio, mas o encontro com o Cristo ressuscitado

E que tem a ver tudo isso com a confissão? Ela consegue falar ao mundo moderno avesso a toda humilhação? Não encerra ela resquícios de visão negativista de mundo?
À primeira vista soaria assim. E muitos se perguntam: por que confessar-me diante de um homem tão pecador como eu? Que sentido tem dizer-lhe uma ladainha de pecados à espera de um perdão que não vejo?

O momento atual levanta muitas dificuldades à confissão a partir da consciência da dignidade humana

A confissão merece mudar de nome para encontrar o verdadeiro sentido. Não se trata primeiramente de confessar pecados. Talvez em divã psicanalítico o paciente revele pormenores muito mais vergonhosos da vida pessoal, mesmo antes que tivesse consciência de que coisa fosse pecado ou mesmo tivesse condição de pecar, a alguém em quem confia simplesmente em nome de preparação acadêmica e científica. E além do mais paga para tais confidências na espera de alguma cura dos tormentos interiores, traumas e dores da alma.

A psicanálise se tornou lugar de confidências e verdadeiras confissões das próprias mazelas interiores

A confissão e a psicanálise não se situam no mesmo plano da revelação da interioridade. Se assim o fosse, a confissão não passaria de remédio psíquico, descoberto milhares anos antes de Freud. Embora não se negue que ela também produza esse efeito de alívio por força de confiar a alguém de fora a interioridade atribulada. No entanto, se permanecêssemos nesse nível, não alcançaríamos o sentido profundo da confissão.
Ele tem a ver com a caminhada quaresmal em direção à Páscoa. Implica três momentos importantes. Tomamos consciência da condição de pecador, não de maneira genérica e universal, mas bem pessoal.

Primeiro passo da confissão: percebemo-nos pecadores em face de pecados bem concretos

Não buscamos simples alívio, descarregando em alguém essa culpabilidade, esse mal-estar interior. Não. Sentimo-nos pecadores diante da própria consciência e de Deus. Sabemos, porém, que esse Deus se mostra infinitamente mais acolhedor que qualquer outro ser humano. Em face desse amor infinito, apresentamo-nos carentes de perdão, de acolhida.

Segundo passo: situar-nos como pecadores diante do amor infinito e acolhedor de Deus

Tudo poderia acabar aí. E para muitas pessoas o arrependimento não vai longe. E Deus perdoa. Nós cristãos entendemos mais. O projeto salvador de Deus passa pela visibilidade da humanidade de Jesus. Assim aproximamo-nos dela e por ela recebemos o perdão de Deus.

Terceiro passo: o perdão de Deus passa pela humanidade visível de Jesus

Assim a adúltera do evangelho, não precisou de outro sinal de perdão do que aquela frase de Jesus. “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8,11). Ele mesmo na sua humanidade sensível tornava visível o perdão de Deus Pai. No entanto, essa humanidade subtraiu-se-nos pela ascensão. Como continuar a visibilidade desse perdão?
A Igreja na sua totalidade prolonga entre nós a presença da humanidade de Jesus, hoje gloriosa e ressuscitada junto ao Pai. E a Igreja atua por meio dos sacramentos.
O sacramento da penitência atua a presença visível da Igreja que visibiliza a humanidade de Jesus entre nós.

E lá está o sacerdote, triplicemente mediador. Portanto, bem pequeno em face do que ele representa. Não nos confessamos, a ele pecador, como nós, mas ao mediador da Igreja. A Igreja, também ela não perdoa em seu nome e sim como mediadora da humanidade de Jesus, hoje ausente no corpo físico, mas, glorioso, presente no sinal sacramental. E, por sua vez, a humanidade de Jesus tornou visível e definitivamente presente entre nós a última fonte do perdão: Deus. Se chegamos mortos pelo pecado, saímos ressuscitados pelo amor perdoante de Deus. Aí está a beleza desse sacramento!
Ao apresentar-nos ao sacerdote para confessar, saibamos que estamos diante da presença visível de um Deus que nos acolhe, arrependidos. É tudo.




Nota.do blog: Que nessa Quaresma, em pleno Ano da Fé, o SACRAMENTO da Ressurreição possa iluminar nossa conversão pessoal e assim os rumos da Igreja!

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