domingo, 4 de janeiro de 2015

Papa Francisco anuncia novos cardeais para a Igreja

O papa Francisco anunciou hoje - 04 de Janeiro de 2015- os nomes de 20 novos cardeais que serão instituídos em Consistório marcado para o dia 14 de Fevereiro {veja a lista abaixo}. Pela primeira vez na história Mianmar, Tonga e Cabo Verde terão cada qual um representante no colégio cardinalício. Os cardeais anunciados pelo papa hoje são provenientes de 14 países.

Dentre os novos cardeais 5 não poderão participar de um eventual conclave por terem mais de 80 anos (idade limite para votar em um conclave). A estes o título cardinalício é um reconhecimento do santo padre à "caridade pastoral no serviço à Santa Sé e à Igreja" segundo informa o boletim da Sala de Imprensa do Vaticano.

Veja quem são os novos cardeais eleitores



Dom Dominique Mambetti: francês, tem 62 anos. nomeado pelo Sumo Pontífice com prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, estância máxima de Justiça da Santa Sé, em 08 de Novembro de 2014 sucedendo ao cardeal Burke. Sua trajetória esteve sempre ligada ao serviço diplomático da Igreja tendo sido núncio em países da África.








Dom Manuel Macário do Nascimento Clemente: português, 66 anos, é o atual patriarca de Lisboa desde 6 de Julho de 2013 com o título de Dom Manuel III.








Dom Berhaneyesus Demerew Souraphiel: etíope, 66 anos, arcebispo de Adis Abeba (Etiópia). É o atual presidente da Conferência Episcopal da Etiópia e Eritréia e presidente da Associação das Conferências Episcopais da África Oriental. A Igreja Católica Etíope, da qual faz parte, é uma igreja oriental de rito alexandrino em comunhão com o Santo Padre.








Dom John Atcherley Dew: neozelandês, 66 anos, arcebispo de Wellington ( Nova Zelândia). É o atual presidente da Conferência episcopal da Nova Zelândia e foi presidente da Federação das Conferências Episcopais da Oceania entre 2011 e 2014.













Dom Edoardo Manichelli: italiano, 75 anos, arcebispo de Ancona-Osimo (Itália). É secretário da Comissão para a Família da Conferência Episcopal Italiana.










Dom Pierre Nguyên Vã Nhon: vietnamita, 76 anos, arcebispo de Há Nói (Vietnã).



















Dom Alberto Suarez Inda, mexicano, 75 anos (terá 76 na data do Consistório), arcebispo de Morelia (México).














Dom Charles Maung Bo SDB: birmanês, 66 anos. Arcebispo de Yaongon (Mianmar). É o único cardeal de seu país.



















Dom Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, tailandês, 65 anos, arcebispo de Bankok.
















Dom Francesco Montenegro, italiano, 68 anos, arcebispo de Agrigento.










Dom Daniel Fernando Sturla Berhouet SDB, uruguaio, 55 anos. Arcebispo de Montevidéu (Uruguai).


















Dom Ricardo Blázquez Pérez, espanhol, 72 anos, arcebispo de Valladolid (Espanha). É o atual presidente da Conferência Episcopal Espanhola.















Dom José luis Lacunza Maestrojuán OAR:
hispano-panamenho, 70 anos. Bispo de David (Panamá).












Dom Arlindo Gomes Furtado, caboverdiano, 65 anos. Bispo de Santiago de Cabo Verde. É o único cardeal da história de seu país.
















Dom Soane Patita Paini Mafi, tonganês, 53 anos. Bispo de Tonga (país constituído por arquipélago situado na Polinésia Ocidental - Oceania). Único cardeal da história de seu país.















Veja quem são os cardeais não eleitores nomeados





Dom José de Jesús Pimiento Rodríguez, colombiano, 95 anos. Arcebispo emérito de Manizales.










Dom Luigi De Magistris, italiano, 88 anos, pró-penitenciário maior emérito.















Dom Karl-Joseph Rauber: alemão, 80 anos. Foi pró-núncio apostólico de Uganda na década de 1980 e sucessivamente núncio apostólico em países da Europa. Atualmente emérito.











Dom Luis Héctor Villalba: argentino, 80 anos. Arcebispo emérito de Tucumán (Argentina).








Dom Júlio Duarte Langa: moçambicano, 87 anos. Bispo emérito de Xai-Xai (Moçambique).





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana – Texto Integral




“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho).

Amados irmãos, 

Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pela gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.

Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano ao serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.

Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e aos seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.

Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”.

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.

Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).

Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui os seus vários dons segundo as suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» - Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».

É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “Corpo” que procura séria e quotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.

Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.

Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De facto, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta quotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contacto quotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer (cf Jo 15, 8).

Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.

A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” pondo de lado os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não ao serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença: a doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina Coelet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo. Quando o apóstolo planifica tudo minuciosamente e pensa que, fazendo uma perfeita planificação, as coisas efectivamente progridem, tornando-se, assim, um contabilista  ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que toda a planificação humana (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque «é sempre mais fácil e cómodo adaptar-se às próprias posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… - domesticar o Espírito Santo! - … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das próprias visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronómico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objectivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos académicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contacto com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).

9. A doença das bisbilhotices, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas cobardes que, não tendo a coragem de falar directamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais especializado não coloca o seu conhecimento ao serviço dos colegas menos especialistas. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de partilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara fúnebre. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer que se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirónico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar connosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu ... Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objectos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo  e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre por boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. 

Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo o meio, contanto que atinja o seu objectivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!

Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda a Cúria, Comunidade, Congregação, Paróquia, Movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.

É necessário esclarecer que só o Espírito Santo - a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Constantinopolitano: «Creio... no Espírito Santo, Senhor e que dá vida» - pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo o esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo o membro participa da santificação do Corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».

O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.

Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência - a viver «pela prática sincera da caridade, crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a actividade que lhe é própria – efectua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade» (Ef 4,15-16).

Amados irmãos!Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o Corpo da Igreja.

Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.


Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!


22/Dezembro/2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Como Saulo de Tarso

Abrir-se à Graça salvífica de Deus às vezes é deixar-se "cair do cavalo", como Saulo de Tarso. E tudo que parece ruína e falência manifesta-se como Glória quando já não restam-nos escamas sobre os olhos. A Misericórdia de Deus é um poderoso instrumento que não pode ser subestimado e que tudo transforma. Abramo-nos à Ação misericordiosa de Deus em nossas vidas. Deixemo-nos cair. Preparemo-nos para a vinda do Cristo nesse tempo de conversão e espera, nesse tempo de Advento. E que advenha-nos a Vida Nova!


Meditemos ainda sobre as palavras de Bento XVI durante uma Catequese em 2006: "Foi precisamente no caminho para Damasco, no início dos anos 30, que Saulo, segundo as suas palavras, foi 'alcançado por Cristo' (Fl 3, 12). Enquanto Lucas narra os fatos com riqueza de pormenores de como a luz do Ressuscitado o alcançou e mudou fundamentalmente toda a sua vida ele nas suas Cartas vai diretamente ao essencial e fala não só da visão (cf. 1 Cor 9, 1), mas de iluminação (cf. 2 Cor 4, 6) e sobretudo de revelação e de vocação no encontro com o Ressuscitado (cf. Gl 1, 15-16). De facto, definir-se-á explicitamente "apóstolo por vocação" (cf. Rm 1, 1; 1 Cor 1, 1) ou "apóstolo por vontade de Deus" (2 Cor 1, 1; Ef 1, 1; Col 1, 1), para realçar que a sua conversão não era o resultado de um desenvolvimento de pensamentos, de reflexões, mas o fruto de uma intervenção divina, de uma imprevisível Graça divina. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3, 7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho".



terça-feira, 5 de agosto de 2014


O preço da vitória - Beato Anacleto González Flores
Publicado no Tomado de Glaudim

O preço da vitória tem sido sempre de sacrifício, de martírio e de sangue.

Os primeiros cristãos puderam afastar os césares e a todos os perseguidores para o deserto da derrota; mas antes tiveram que batizar com seu sangue a juba dos leões do circo e das arenas ardentes onde combateram com os imperadores.

A Igreja continua e continuará fazendo sua peregrinação através de um caminho de espadas.

A mão dos fortes se abrirá para afogá-la, como desejaram os primeiros perseguidores e será necessário que minuto a minuto se repita o encontro e que corações, espíritos, corpos e consciência padeçam as torções de dor e as angústias e as fadigas da luta.

Um dia será sob o golpe do aço que     corta a carne de homens inermes; outras vezes sob o golpe da caneta, do pensamento e das palavras; mas, minuto a minuto terá que repetir, terá que se renovar forte, profunda e viva, a batalha de todos os dias, de cada instante, de todos os momentos.

E minuto a minuto será preciso que Deus contribua, é certo, com a força de seu braço; mas minuto a minuto será também preciso, será indispensável, será imprescindível, que cada católico contribua com sua ajuda de dor, de fadiga, de sangue, para alcançar a vitória.

E apesar de nossas covardias, desorientação, medo e preguiça, o preço da vitória de Deus por meio dos homens – ali está a história para comprová-lo – tem sido e será sempre angustia, fadiga, imolação da carne, do espírito e da vida.

De tal maneira que se os católicos não aceitem, não dêem o tributo da amargura, de luta que devemos dar todos, a vitória não virá.

Nada tem custado tanto até agora aos homens e aos povos como a vitória, porque a vitória é o que mais custa de tudo!

Nós temos querido conquistá-la ao preço de nossa covardia e de nossa inércia.

Por isto ela não veio. Teremos que comprá-la. Para conquistá-la teremos que pagar integralmente seu preço de dor, de sangue ou pelo menos de cansaço e esforço.

Nós estamos posicionados muito claramente diante dessa duas opções: ou pagamos plenamente o preço da vitória e logremos tê-la em nossas mãos; ou nos negamos, como agora, a pagar o preço total e então deveremos pensar que estamos condenados a levar para sempre a algema e o sinal desonroso dos derrotados.

Paguemos o preço da vitória!

Hoje com um débil esforço e com sacrifício insignificante.

Amanhã, diante do potro[1] [instrumento de tortura] e com o corpo ensangüentado.

A vitória não tardará!


[1] Potro é um antigo instrumento de tortura. Era uma espécie de cavalo de madeira em cima do qual o torturado era colocado, sendo os seus membros atados a um torno, que uma vez acionado, retesava as cordas e deslocava os membros da vítima. (Wikipédia)


FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. 322-324 p.

terça-feira, 12 de março de 2013

Beato João Paulo II no Brasil em 1997

Relembrando de um papa santo no Brasil.

João Paulo II no Rio de Janeiro em 1997; com Dom Eugênio Cardeal Sales.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Confissão e ressurreição

Texto do Pe. João Batista Libânio SJ.
(Vida Pastoral – abril 2011 - 4810)

Ressurreição e confissão: bela ilação! Ambas falam da vida. A ressurreição encontra em Jesus a sua expressão máxima e anuncia para nós o início da vida além da morte. Ela coroa, em Jesus, vida de entrega de amor a Deus Pai e à humanidade. E espera-nos como coroa da existência entregue ao mesmo Deus no amor. Ressurreição fala então de vida e amor.

Na ressurreição professamos a fé na vida movida pela confiança no amor de Deus

Quando terminamos a quaresma e a dolorosa semana santa na luz da ressurreição, sentimos que a longa caminhada de purificação, de penitência não esbarra no vazio, no desprezo maniqueu do corpo, nos sacrifícios doentios, mas no esplendor da vida. Para o cristão, só tem sentido falar de qualquer renúncia a algum bem terrestre em vista do amor e da vida. Não compartilha de doutrinas estranhas que desconhecem de quem viemos. Fomos criados pela vida e amor infinitos de Deus, fonte última de felicidade e beleza.
O cristão reconhece que no fim de qualquer trajetória de dor ou renúncia, não está o vazio, mas o encontro com o Cristo ressuscitado

E que tem a ver tudo isso com a confissão? Ela consegue falar ao mundo moderno avesso a toda humilhação? Não encerra ela resquícios de visão negativista de mundo?
À primeira vista soaria assim. E muitos se perguntam: por que confessar-me diante de um homem tão pecador como eu? Que sentido tem dizer-lhe uma ladainha de pecados à espera de um perdão que não vejo?

O momento atual levanta muitas dificuldades à confissão a partir da consciência da dignidade humana

A confissão merece mudar de nome para encontrar o verdadeiro sentido. Não se trata primeiramente de confessar pecados. Talvez em divã psicanalítico o paciente revele pormenores muito mais vergonhosos da vida pessoal, mesmo antes que tivesse consciência de que coisa fosse pecado ou mesmo tivesse condição de pecar, a alguém em quem confia simplesmente em nome de preparação acadêmica e científica. E além do mais paga para tais confidências na espera de alguma cura dos tormentos interiores, traumas e dores da alma.

A psicanálise se tornou lugar de confidências e verdadeiras confissões das próprias mazelas interiores

A confissão e a psicanálise não se situam no mesmo plano da revelação da interioridade. Se assim o fosse, a confissão não passaria de remédio psíquico, descoberto milhares anos antes de Freud. Embora não se negue que ela também produza esse efeito de alívio por força de confiar a alguém de fora a interioridade atribulada. No entanto, se permanecêssemos nesse nível, não alcançaríamos o sentido profundo da confissão.
Ele tem a ver com a caminhada quaresmal em direção à Páscoa. Implica três momentos importantes. Tomamos consciência da condição de pecador, não de maneira genérica e universal, mas bem pessoal.

Primeiro passo da confissão: percebemo-nos pecadores em face de pecados bem concretos

Não buscamos simples alívio, descarregando em alguém essa culpabilidade, esse mal-estar interior. Não. Sentimo-nos pecadores diante da própria consciência e de Deus. Sabemos, porém, que esse Deus se mostra infinitamente mais acolhedor que qualquer outro ser humano. Em face desse amor infinito, apresentamo-nos carentes de perdão, de acolhida.

Segundo passo: situar-nos como pecadores diante do amor infinito e acolhedor de Deus

Tudo poderia acabar aí. E para muitas pessoas o arrependimento não vai longe. E Deus perdoa. Nós cristãos entendemos mais. O projeto salvador de Deus passa pela visibilidade da humanidade de Jesus. Assim aproximamo-nos dela e por ela recebemos o perdão de Deus.

Terceiro passo: o perdão de Deus passa pela humanidade visível de Jesus

Assim a adúltera do evangelho, não precisou de outro sinal de perdão do que aquela frase de Jesus. “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8,11). Ele mesmo na sua humanidade sensível tornava visível o perdão de Deus Pai. No entanto, essa humanidade subtraiu-se-nos pela ascensão. Como continuar a visibilidade desse perdão?
A Igreja na sua totalidade prolonga entre nós a presença da humanidade de Jesus, hoje gloriosa e ressuscitada junto ao Pai. E a Igreja atua por meio dos sacramentos.
O sacramento da penitência atua a presença visível da Igreja que visibiliza a humanidade de Jesus entre nós.

E lá está o sacerdote, triplicemente mediador. Portanto, bem pequeno em face do que ele representa. Não nos confessamos, a ele pecador, como nós, mas ao mediador da Igreja. A Igreja, também ela não perdoa em seu nome e sim como mediadora da humanidade de Jesus, hoje ausente no corpo físico, mas, glorioso, presente no sinal sacramental. E, por sua vez, a humanidade de Jesus tornou visível e definitivamente presente entre nós a última fonte do perdão: Deus. Se chegamos mortos pelo pecado, saímos ressuscitados pelo amor perdoante de Deus. Aí está a beleza desse sacramento!
Ao apresentar-nos ao sacerdote para confessar, saibamos que estamos diante da presença visível de um Deus que nos acolhe, arrependidos. É tudo.




Nota.do blog: Que nessa Quaresma, em pleno Ano da Fé, o SACRAMENTO da Ressurreição possa iluminar nossa conversão pessoal e assim os rumos da Igreja!

Essência da Teologia da Libertação foi defendida por Bento XVI. Entrevista com Clodovis Boff



Foto: Clodovis Boff

    Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento XVI visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação - movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.

Em entrevista por telefone, frei Clodovis diz que Bento XVI defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.

A entrevista é de Alexandre Gonçalves e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-03-2013. Eis a entrevista.

Bento XVI foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?
Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico. No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?
Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja. Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

Não há margem para a caridade cristã?
O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.

Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?
Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.

"Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?
Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Foto: Karl Rahner
Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.
O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?
Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.
Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

Bento XVI sepultou os avanços do Concílio Vaticano II?
Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano II criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de  cristianismo. É um equívoco. O papa João XXIII (foto) foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.
Bento XVI garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano II?
Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano II. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.
Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.
A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.
Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

Como descreveria a relação de Bento XVI com a modernidade?
É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

Ainda assim, há pessimismo.
Há algo que ele precisaria corrigir: Bento XVI leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.
A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

Que outras críticas o sr. faria a Bento XVI?
Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo II. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?
Bento XVI não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano II: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.
Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

Como vê o futuro da igreja?
A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.



Via: IHU