terça-feira, 12 de março de 2013

Beato João Paulo II no Brasil em 1997

Relembrando de um papa santo no Brasil.

João Paulo II no Rio de Janeiro em 1997; com Dom Eugênio Cardeal Sales.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Confissão e ressurreição

Texto do Pe. João Batista Libânio SJ.
(Vida Pastoral – abril 2011 - 4810)

Ressurreição e confissão: bela ilação! Ambas falam da vida. A ressurreição encontra em Jesus a sua expressão máxima e anuncia para nós o início da vida além da morte. Ela coroa, em Jesus, vida de entrega de amor a Deus Pai e à humanidade. E espera-nos como coroa da existência entregue ao mesmo Deus no amor. Ressurreição fala então de vida e amor.

Na ressurreição professamos a fé na vida movida pela confiança no amor de Deus

Quando terminamos a quaresma e a dolorosa semana santa na luz da ressurreição, sentimos que a longa caminhada de purificação, de penitência não esbarra no vazio, no desprezo maniqueu do corpo, nos sacrifícios doentios, mas no esplendor da vida. Para o cristão, só tem sentido falar de qualquer renúncia a algum bem terrestre em vista do amor e da vida. Não compartilha de doutrinas estranhas que desconhecem de quem viemos. Fomos criados pela vida e amor infinitos de Deus, fonte última de felicidade e beleza.
O cristão reconhece que no fim de qualquer trajetória de dor ou renúncia, não está o vazio, mas o encontro com o Cristo ressuscitado

E que tem a ver tudo isso com a confissão? Ela consegue falar ao mundo moderno avesso a toda humilhação? Não encerra ela resquícios de visão negativista de mundo?
À primeira vista soaria assim. E muitos se perguntam: por que confessar-me diante de um homem tão pecador como eu? Que sentido tem dizer-lhe uma ladainha de pecados à espera de um perdão que não vejo?

O momento atual levanta muitas dificuldades à confissão a partir da consciência da dignidade humana

A confissão merece mudar de nome para encontrar o verdadeiro sentido. Não se trata primeiramente de confessar pecados. Talvez em divã psicanalítico o paciente revele pormenores muito mais vergonhosos da vida pessoal, mesmo antes que tivesse consciência de que coisa fosse pecado ou mesmo tivesse condição de pecar, a alguém em quem confia simplesmente em nome de preparação acadêmica e científica. E além do mais paga para tais confidências na espera de alguma cura dos tormentos interiores, traumas e dores da alma.

A psicanálise se tornou lugar de confidências e verdadeiras confissões das próprias mazelas interiores

A confissão e a psicanálise não se situam no mesmo plano da revelação da interioridade. Se assim o fosse, a confissão não passaria de remédio psíquico, descoberto milhares anos antes de Freud. Embora não se negue que ela também produza esse efeito de alívio por força de confiar a alguém de fora a interioridade atribulada. No entanto, se permanecêssemos nesse nível, não alcançaríamos o sentido profundo da confissão.
Ele tem a ver com a caminhada quaresmal em direção à Páscoa. Implica três momentos importantes. Tomamos consciência da condição de pecador, não de maneira genérica e universal, mas bem pessoal.

Primeiro passo da confissão: percebemo-nos pecadores em face de pecados bem concretos

Não buscamos simples alívio, descarregando em alguém essa culpabilidade, esse mal-estar interior. Não. Sentimo-nos pecadores diante da própria consciência e de Deus. Sabemos, porém, que esse Deus se mostra infinitamente mais acolhedor que qualquer outro ser humano. Em face desse amor infinito, apresentamo-nos carentes de perdão, de acolhida.

Segundo passo: situar-nos como pecadores diante do amor infinito e acolhedor de Deus

Tudo poderia acabar aí. E para muitas pessoas o arrependimento não vai longe. E Deus perdoa. Nós cristãos entendemos mais. O projeto salvador de Deus passa pela visibilidade da humanidade de Jesus. Assim aproximamo-nos dela e por ela recebemos o perdão de Deus.

Terceiro passo: o perdão de Deus passa pela humanidade visível de Jesus

Assim a adúltera do evangelho, não precisou de outro sinal de perdão do que aquela frase de Jesus. “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8,11). Ele mesmo na sua humanidade sensível tornava visível o perdão de Deus Pai. No entanto, essa humanidade subtraiu-se-nos pela ascensão. Como continuar a visibilidade desse perdão?
A Igreja na sua totalidade prolonga entre nós a presença da humanidade de Jesus, hoje gloriosa e ressuscitada junto ao Pai. E a Igreja atua por meio dos sacramentos.
O sacramento da penitência atua a presença visível da Igreja que visibiliza a humanidade de Jesus entre nós.

E lá está o sacerdote, triplicemente mediador. Portanto, bem pequeno em face do que ele representa. Não nos confessamos, a ele pecador, como nós, mas ao mediador da Igreja. A Igreja, também ela não perdoa em seu nome e sim como mediadora da humanidade de Jesus, hoje ausente no corpo físico, mas, glorioso, presente no sinal sacramental. E, por sua vez, a humanidade de Jesus tornou visível e definitivamente presente entre nós a última fonte do perdão: Deus. Se chegamos mortos pelo pecado, saímos ressuscitados pelo amor perdoante de Deus. Aí está a beleza desse sacramento!
Ao apresentar-nos ao sacerdote para confessar, saibamos que estamos diante da presença visível de um Deus que nos acolhe, arrependidos. É tudo.




Nota.do blog: Que nessa Quaresma, em pleno Ano da Fé, o SACRAMENTO da Ressurreição possa iluminar nossa conversão pessoal e assim os rumos da Igreja!

Essência da Teologia da Libertação foi defendida por Bento XVI. Entrevista com Clodovis Boff



Foto: Clodovis Boff

    Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento XVI visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação - movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.

Em entrevista por telefone, frei Clodovis diz que Bento XVI defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.

A entrevista é de Alexandre Gonçalves e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-03-2013. Eis a entrevista.

Bento XVI foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?
Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico. No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?
Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja. Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

Não há margem para a caridade cristã?
O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.

Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?
Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.

"Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?
Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Foto: Karl Rahner
Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.
O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?
Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.
Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

Bento XVI sepultou os avanços do Concílio Vaticano II?
Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano II criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de  cristianismo. É um equívoco. O papa João XXIII (foto) foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.
Bento XVI garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano II?
Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano II. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.
Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.
A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.
Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

Como descreveria a relação de Bento XVI com a modernidade?
É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

Ainda assim, há pessimismo.
Há algo que ele precisaria corrigir: Bento XVI leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.
A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

Que outras críticas o sr. faria a Bento XVI?
Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo II. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?
Bento XVI não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano II: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.
Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

Como vê o futuro da igreja?
A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.



Via: IHU